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Domingo, Fevereiro 07, 2010



O IAB-SP e a gentrificação onde menos se espera




Se há uma pergunta que não quer calar no mundo da arquitetura essa semana é o paradeiro dos mendigos que moravam sob a marquise do IAB-SP. Aos que não conhecem as instalações – a dos mendigos claro, já que o prédio projetado por Rino Levi é um clássico – cabe apresentá-la em sua totalidade: um sofá, um colchonete, uma mesinha de canto usada como de centro, e uma TV de plasma de 42 polegadas, sendo esta ultima imaginária, mas freqüentemente utilizada pelos usuários.

O caso é que foram despejados da calçada do IAB, em plena época de enchentes, sem qualquer aviso prévio por parte do condomínio. Aquela vida pacífica que o conjunto proporcionava, com a brisa intermitente e insolação abundante em toda a moradia, podem ser esquecidas junto ao sono tranqüilo embalado pela garoa fina de pastilhas que os acompanhou ao longo dos anos.

De um dia para o outro, escoras metálicas assumiram o lugar do Móbile do Calder na função de segurar o prédio em pé e ocuparam com violência o que antes era o quarto de casal e o home theater dos antigos moradores, deixando desolados vizinhos de ambos os sexos que freqüentemente passavam por ali para uma visitinha.
Em eventos polêmicos como esses, é sempre o caso de buscar a resposta nas autoridades. (que, aliás, acabam de ser reempossadas, já que a Chapa General Jardim, de oposição, continua ignorando que o São Paulo é o nome do Estado, e não só da cidade, e só fez campanha na própria rua).

E qual foi a resposta das autoridades? Sem novidades: providenciou um projeto. No caso, o projeto do tapume. Bom, é um começo, não? Não sabemos se ele vai ter alguma função estrutural no processo, mas uma coisa é certa: ninguém vai poder reclamar que está vendo alguma coisa errada acontecendo no IAB por um bom tempo.


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* Imagem do IAB gentilmente surrupiada daqui.





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Sexta-feira, Janeiro 22, 2010



Um breve comentário sobre a casa do post abaixo

A arquitetura modernista de linhagem niemeyer-corbusiana tem mais em comum do que a paleta albina de cores e o solene desprezo pelo entorno; tem o mesmo e declarado objetivo: abrir os cotovelos sobre a vizinhança e assim reivindicar um lugar de destaque no yearbook da história.

Claro que existiram – e vá lá, ainda existem- casos em que a estratégia traz resultados expressivos, nem carecemos de citações. Mas sempre ao custo dessa moral de tabula rasa, literal ou imaginária dá sustentação ao vôo do pavão.

É o caso de lembrar que quando o modernismo não era apenas um estilo, era uma ideologia totalitária. “Existem as nossas pontes, e as deles; existem as nossas catedrais, e as deles.” A pérola de humildade é de Lênin, mas poderia muito bem ser do jovem Corbu, ou do, huh, perene Niemeyer.

G.K. Chesterton (falarei muito dele esse ano) dizia que a tradição é uma extensão da democracia. É o direito de voto dos mortos, que afinal, ajudaram a construir o presente. O modernismo cancelou o direito de voto de todo esse eleitorado em nome de sua revolução estética. Já Lênin e Stalin, bem, vocês sabem a história.

Tudo isso para fechar o comentário com a seguinte questão: quão democrático o modernismo se tornou ao longo do tempo? Ele já aceita debater com a tradição ou há algo inerentemente autoritário em sua estética?

Não é uma questão de resultado, repito, mas de postura. Quem enche a boca para dizer que fez algo como “nunca antes nesse país”, ou nesse planeta, ou nesse bairro, poderia ao menos se lembrar de perguntar se não havia uma boa razão para que certas coisas não tenham sequer a chance de ser testadas.





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Quarta-feira, Janeiro 20, 2010





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Domingo, Janeiro 17, 2010


Berlim Tetris


isso explica muitos projetos por aí..



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Quarta-feira, Janeiro 13, 2010


Anatomia da Estante 2009

Mais recomendações fúteis de livros que cedo ou tarde vocês acabarão lendo.





Exterior Design in Architecture, Yoshinobu Ashihara

Verdadeiro rombo na minha formação (notadamente marcada pela leitura de toneladas de besteiras de quinta categoria por ordens médicas, digo acadêmicas), só no semestre passado consegui enfim por as mãos nesse livro. Ser um clássico é o de menos - é um livro old school: assume tranquilamente a tarefa de ensinar como se projeta – no caso, espaços exteriores aos edifícios – ignorando solenemente esse tabu oitecentista/contemporâneode que arquietura não se ensina. O livro costura com habilidade conceitos abstratos sobre a percepção dos espaços abertos (no oriente e no ocidente) com noções práticas de projeto, como angulações, distancias e proporções (how old school is that!) dos elementos arquitetônicos. Ainda se fazem livros assim? Bem, de resto, é inevitável, sua teoria permeie fortemente também a concepção arquitetônica das edificações, formando um conjunto teórico e prático segundo o qual é possível -e muito útil - analisar qualquer projeto.




Reinvente seu Bairro, Cândido Malta

Um livro básico, em muitos sentidos; básico por apresentar os parâmetros fundamentais do projeto urbano, praticamente um livro-texto para estudantes e interessados em urbanismo; básico também na contextualização crítica dos problemas urbanos contemporâneos, usando problemas reais de bairros existentes para discuti-lo; e, por fim, básico porque retorna o foco da discussão do urbanismo no que considero ser sua autentica razão de ser: qualidade de vida. Duas ressalvas,quase três, são necessárias, mas certamente não desmerecem o conjunto. A primeira é o grau de regulação estatal defendido pelo autor; se o excesso de liberdade causa estragos no tecido urbano, o excesso de regulamentações o engessa e inviabiliza. A segunda, besteira, é um aviso de que a parte final do livro entra em minúcias técnicas de planejamento que só não é um porre para quem está engajado totalmente na causa. Ah, sim, a quase terceira: essas teorias e práticas são sem dúvida consideradas saudáveis para a grande maioria das cidades brasileiras, mas para São Paulo, nevermind. This ship has sailed.




Edificações: 3000 anos de projeto Bill Adis

“Engenharia da Edificação”. Conhece o termo? Pois esse é o conceito escolhido para filtrar a história do mundo construído desde as pirâmides até a arquitetura recente. Trata-se de uma abordagem global sobre como se construir um edifício - das habilidades, ferramentas e materiais disponíveis em cada época para a solução de, bem, grandes problemas. È uma disciplina muito próxima da arquitetura, pelas relações que estabelece, como método, entre as partes e o todo de uma construção - muito diferente da abordagem “especialista” que a engenharia contemporânea traz para as reuniões hoje em dia. Dos blocos de calcário aos colchões de ETFE, o livro cobre na ordem cronológica os principais saltos tecnológicos de cada época, mas com o perdão do spoiler, o clímax do romance permanece sendo a revolução provocada pela dupla aço e vidro. A arquitetura respira diferente desde então.




Building Up and Tearing Down, Paul Goldemberger

Nunca coloquei as mãos nesse livro, recém-lançado, mas já o li, e recomendo. Como? Paul Goldemberger é colunista de arquitetura da New Yorker, que disponibiliza todos seus artigos on-line. O livro é uma coletânea da contribuição para a revista, e garanto que a vida do editor foi fácil. Os artigos são excelentes – e um contraponto relaxante ao que normalmente lemos no Brasil. Enquanto nossa “crítica” não viram o disco sobre o que chama de arquitetura do espetáculo, Goldemberger escreve com desassombro sobre ela, passeando pelas principais obras e sentando o pau em algumas quando necessário – mas falando sempre de arquitetura, sem os cansativos filtros orçamentários ou de coitadismo social.




As cidades vivas, viva as cidades! Sergio Teperman

Crônicas de um arquiteto que trabalhou com Alvar Aalto, deu carona para Le Corbusier e que já rodou o Brasil inteiro fazendo projetos já seria, pelo contexto escasso desse tipo de obra, uma leitura desejável. Mas serei honesto de admitir que o Sergio Teperman é muito mais que isso. Alem de viajado, soube acumular uma sólida formação cultural e sabe escrever, no sentido literário do termo. Compartilho de muitas de suas opiniões sobre os problemas da prática da arquitetura no Brasil e fora dele, o que sim, facilita a leitura. A coletânea dá transparência a algumas obsessões que se repetem exageradamente - notadamente os trocadilhos e todas as mulheres que forma símbolo sexuais em algum momento no século XX – mas que fazem seu estilo, não atrapalham na tarefa de contribuir para uma, por falta de nome melhor, história dá prática da arquitetura no brasil.





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Segunda-feira, Janeiro 11, 2010


Best Ever

Há um sujeito - aparentemente com bastante tempo livre - chamado Alex Roman. Com este nome parece americano ou cartunista, mas calha do rapaz morar em Madrid, España. E este sujeito fez, sozinho, o que eu acho a mais bela obra de computação gráfica sobre arquitetura. Na verdade, sobre arquitetura, cinema e fotografia.

The Third & The Seventh from Alex Roman on Vimeo.




The Third & The Seventh é um projeto que mostra a arquitetura através de duas outras artes: a fotografia e o cinema. No extenso making of ele aparece pegando um modelo de Louis Kahn no 3D Google Warehouse e tratando, tratando, tratando as cores e texturas até que você se sinta numa tarde em Bangladesh.

Dicas do autor: veja em fullscreen, em HD e com som. O vídeo tem aproximadamente 13min, portanto espere pacientemente carregar e por favor: chame seus amigos do escritório para ver.

P.S.: ah, para a gentalha que não acredita que é 3D, que tal ver o Compositing Breakdown?



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Quarta-feira, Janeiro 06, 2010


Práxis I


1. Professores que dizem que “projetar não se ensina, se aprende” não fazem nem uma coisa nem outra.

2. A arquitetura é a profissão frustrada de todo mundo – inclusive dos arquitetos.

3. Em São Paulo, a Forma segue Legislação.

4. Paisagem é o que você veria não fossem os postes, placas, lixo, e claro, se desse para dar uns 50 passos para trás.

5. Orçamento é quanto custaria uma obra se não envolvesse seres humanos em todo o processo.

6. Não adianta propor chave de fenda para quem está acostumado usar a unha.

7. Até Le Corbusier disse que a primeira lei da arquitetura é arranjar projeto; e olha que ele vivia de royalties de livros.

8. Analise seu projeto como se seu cliente fosse seu pior inimigo. Às vezes, você acerta.

9. No Japão, terremoto é programa arquitetônico; no Brasil, chuva é fatalidade.

10. Há 100 anos, os arquitetos queriam mudar a arquitetura por causa do clima; hoje querem mudar o clima do planeta através da arquitetura. Deixaram de fazer a primeira coisa e, obviamente, não podem fazer a segunda.







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Sábado, Janeiro 02, 2010


Agora tá pronto: o maior para-raio do mundo


Burj Dubai

Enfim, a novela termina. Após atrasos, rombos de orçamento e muita especulação, o Burj Dubai será inaugurado segunda-feira, dia 04. A altura ainda permanece sem um número oficial (algo entre 815 - 825m) mas em maio de 2008 já era a maior construção humana feita. Arquitetonicamente? Nada demais, é um prédio em Y com fachada de vidro. Vai ser o maior prédio, com a maior fonte, com concreto suficiente pra encher Itaipu e criar a maior laje recreativa do mundo. Mas - what the hell - só espero pra ver na Discovery o documentário do prédio, pois "engenheiristicamente" falando sim, quero ver as maravilhas que tiveram que ser boladas pra deixar esse troço de pé.



Aproveitem a vista, enquanto Dubai como um todo ainda está de pé. Pelos pedidos de empréstimo, em 2010 não vai ter dinheiro no mundo capitalista pra saldar toda essa lambança


12:33
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Segunda-feira, Dezembro 07, 2009



Um Estranho sem Ninho


One Flew Over the Cuckoo's Nest





Antecipar um arrependimento em nada diminui o sofrimento que ele causará na hora apropriada. Aliás, pelo contrário; sofre-se antes e depois, quando o erro antecipado se torna fato consumado. Assim, mesmo tendo plena consciência de que a melhor coisa que eu poderia ter feito na semana passada seria pegar pipoca, guaraná e um assento na palestra do Jacques Herzog na FAU, sucumbi aos afazeres do escritório e não fui.

Perdi, claro, o espetáculo que eu já esperava assistir. E foi melhor, muito melhor do que eu esperava.

Sim, eu já esperava que os valentes universitários fossem cobrar do suíço a razão pela qual nãose recusaram a fazer o projeto, tendo em vista o risco que o a dupla representa para a soberania nacional, a harmonia urbana de São Paulo e para todos os milhares de arquitetos brasileiros vencedores de Pritzkers, Royal Gold Medals, e tantos concursos internacionais - que afinal, estão perdendo uma grande oportunidade de mostrar para eles como é que se faz.

Já esperava também o questionamento por essa história de teatro para as classes mais altas, uma ignorância programática que só poderia mesmo vir da Suíça. Ou seja, se nada mudar, as classes menos favorecidas vão ter de continuar lotando a Sala São Paulo e o Municipal mesmo.

Mas tudo isso era de se esperar. O que realmente me surpreendeu foi a coragem , como a mais audaz das vanguardas, de cobrá-lo explicitamente: “hey, mas cadê o espetáculo? Cadê o símbolo do capitalismo-triunfante-neoliberal e o escambau ?”

Claro, o homem não tinha o que responder; havia sido desmascarado. Será que Ingenuamente achava que com tamanho conservadorismo - apresentando um conceito de projeto integrado ao contexto, resolvendo o programa complexo em uma volumetria fluida e simples - estaria atendendo a demanda de nossa antenada vanguarda? Na FAU, os alunos não deixaram por menos, e exigiram o mínimo: tire essas referência modernas daí, queremos o nosso ninho, e que brilhe mais que o chinês!

Que ele tenha perdido a paciência com reivindicações tão justas, é só uma amostra do despreparo do projeto. Diz ele que estudaram o terreno por um ano, mas é de se duvidar. Tivesse reparado em São Paulo direito, veriam que uma proposta simples, bem resolvida, com uma linguagem simples em materiais comuns têm em qualquer esquina, e a gente mesmo faz.


PS: Para quem, como eu, perdeu a sessão da tarde, follow up, para não dizer down:

Piniweb

ArqBacana

Portal Casa

Bol Noticias

Ah, e a minha modesta opinião na AU, há alguns meses.






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Domingo, Novembro 29, 2009






Gregos dirigem de duas a três doses mais perigosamente do que nós; são absolutamente incapazes de olhar uma mulher sem fazer cara de Al Pacino no cio; e conseguem ficar sem fumar por uns 17 minutos ao longo do dia, banho e higiene bucal inclusos.

Peculiaridades assim, todas facilmente descobertas na primeira meia hora em solo grego, são na verdade reconfortantes. Os encarregados de administrar a maior herança cultural da Terra são pessoas como eu e você – com a sistemática exceção de serem permanentemente torrados de sol.

Não há tempo suficiente na vida para conhecer a cultura grega, sabemos; mal dá tempo, em dez dias, para descobrir se comemos a moussaka certa. E dessa angústia, da tentativa de costurar a experiência da Grécia do passado e do presente em uma só, resultará uma surpresa, vocês verão a seu tempo. Mas uma vez em Atenas, não é possível encontrar a paz - espiritual e turística - antes de subir até a Acrópole. E vocês sabem o porquê.

Em resumo, porque não existiria a Civilização Ocidental sem a Civilização Grega. Não existiria, por sua vez, a Civilização Grega sem Atenas. E não existiria “Atenas”, tal como a idealizamos, não fosse o Parthenon. Exagero? Subamos, então, a Acrópole, em busca de uma vista que justifique tamanha influência.





A Civilização Grega tem o homem como ponto de partida e de chegada; é ela mesma o arranque do humanismo, tentando em sua filosofia, sua política, sua ciência e claro, em sua arte, situar o "bípede implume" no mundo, e ver o quanto de “harmonia”se consegue nesse arranjo.

Relação que pelo visto, começou com o homem tomando uma surra da geografia grega - solo, clima, topografia e todos os deuses do Olimpo rolando pedras, umas mitológicas e outra nem tanto, sobre os gregos. Mal sabiam que o mármore pentélico não era páreo para esses históricos cabeças duras.

A Acrópole, que pela manhã sombreia Plaka, (o bairro histórico e histérico, de ruínas e turistas) não é apenas um grande bloco de mármore seco (descrição que se pode aplicar a quase toda a Grécia, aliás), mas uma obra: todo o rochedo é cercado por uma grande muralha , que alarga e aplaina seu topo para melhor ocupá-lo.

O caminho rumo ao topo, em mármore liso e fosco, é permanentemente tratado e limpo pelo vento forte e seco. A subida é íngreme, mas o Parthenon visto desde lá de baixo atua como um imã, exercendo essa atração que só se dissipa ao se atravessar o Propileus.





O templo de Éfesos, na Turquia, era bem maior; o de Hephaistos, na própria Atenas, muito mais conservado; a Stoa de Attalos, na Ágora antiga, é uma construção tecnicamente muito mais precisa. O que afinal o Parthenon tem de especial?

Mais uma vez, o homem como ponto de partida e de chegada. Ou mais precisamente, um refinamento projetual que privilegia o, se me permitem, "cliente", já que naquela época era mais evidente que o verdadeiro cliente de qualquer projeto de arquitetura é todo mundo.

Daí que no lugar de um gigantismo imperial, temos proporção. Quem saberá como Fídias encontrou a razão perfeita entre altura, profundidade e largura do templo (inclusive em relação à superfície disponível na Acrópole)? Musas a parte, o fato é que encontrou, mas não se deu por satisfeito.

Porque poderia ainda assim ter feito uma construção tecnicamente exata do ponto de vista matemático. Preferiu privilegiar as limitações de nossas córneas.

Assim, as colunas são ligeiramente concêntricas; o primeiro degrau, de altura diferente; o piso, levemente abaulado para cima. Enquanto a maioria dos templos optam por geometrias perfeitas que se dissolvem ao olhar, o Parthenon oferecia a coesão e a firmeza inquietante de um corpo humano em pé, peças suavemente curvas para melhor sustentar uma mente na vertical.



image by Anthony Ayiomamitis


Hoje é fácil dizer que Péricles sabia o que estava fazendo; torrando riquezas que a austera Grécia não tinha, insistiu na realização estética de um ideal que representava sua civilização.

O helenismo não durou tanto, como civilização, mas espalhou a partir dali sua semente pela história – o que ficou marcado no próprio Parthenon: tornou-se templo cristão, depois mesquita islâmica, depois (ó, gênios!) um depósito de pólvora, que naturalmente explodiu durante uma das incontáveis guerras por ali e mandou pelos ares boa parte da riqueza pela qual persas, turcos e gregos passaram milênios disputando a posse.

A pressa pela restauração do Parthenon é pelo que se pode observar lá, precisamente nenhuma. É certo que uma civilização dessa idade conta o tempo de forma diferente, mas de qualque modo qualquer tipo de urgênciaaqui soaria forçada. O homem ainda é o centro das atenções na Grécia (a não ser que esteja passando uma mulher de saia); e o Parthenon está lá, com mesmo vento de 2.500 anos atrás assoviando incessantemente em suas quinas, para calibrar nossos olhos para as belezas do mundo.










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Quinta-feira, Outubro 15, 2009





Quer implantar o apocalipse no mundo?
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Quarta-feira, Outubro 14, 2009





Prelúdio suíço. Prelúdio coisa nenhuma. A Suíça, vocês notarão, é uma das constantes dessa viagem. Mas que começa em Zurich (começa na verdade em algum lugar entre o norte de Minas e o sul da Bahia, a dez mil pés, quando a swiss air passa a subornar seus reféns com chocolates e gruyeres “da casa”). Disse Zurich? Desculpem-me. Quis dizer Flughafen Zurich o novo terminal internacional, o mais próximo que cheguei, por hora, do solo suiço. É bom lembrar que estávamos a caminho do berço da civilização – e devo dizer, agora já de volta, que nem é o berço: é nada menos que a sala de parto – mas não tínhamos em mente que para chegar lá precisaríamos cruzar com a outra ponta da história – o estado da arte, os cascos escovados da civilização galopante.

Design suíço. Design coisa nenhuma. Ou todo o resto do que chamamos de design precisa de um outro nome - talvez seja o que os suíços chamam de Scheiße. Um exemplo? Você pega o trem que interliga os terminais. Uma sucessão de frames dispostos ao longo do tunel formam uma espécie de “curta” para ser apreciados pelas enormes e cristalinas laterais do vagão. Detalhe: a viagem não dura três minutos. Não gaste tempo pensando em como se sincroniza isso; sincronia é o que se vê em todo lugar: na longa negociação dos brises com o sol e nos encontros incrivelmente simultâneos de granitos, vidros, madeiras e telas metálicas em cada vértice do terminal.







Sentado no Central Bar, sendo prazeirosamente esfaqueado em troca de um simples (n)espresso, me surpreendo, sem jeito, sobre como precisão é um conceito absoluto nas prachetas suíças; ora, para relojoeiros, não há papo mais obscurantista que “margem de erro”; dessas mentes, lapiseiras e calculadoras erguem-se estradas, edifícios, cadeiras que esnobam nossa vã engenharia; de resto, é como se perguntassem “e quem vai errar, cara-não-pálida?”









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Sábado, Outubro 03, 2009



Viagens. Vale a pena documentá-las? Estou nesse embate há dias, daí o sumiço prolongado, amplamente notado pelos 15 fiéis desta igrejinha.

Uma retrospectiva indica que, pelo menos para os arquitetos, o assunto interessa - o que Ítalo Calvino deve ter notado em sua conta bancária ao longo dos anos. Dentre as cidades visíveis, é inevitável destacar o que um tour pelo oriente próximo (da Europa, bien sur) fez com o jovem – e já bom escritor – Charles-Edouard: transformou-o em Le Corbusier. Sim, ninguém inventa um nome de tablóide sensacionalista para si mesmo sem uma boa dose de desrazão. E essa desrazão nasceu nessa viagem.

As referências não são coincidência.

O trecho mais interessante da “Viagem do Oriente” é justamente o que fui conhecer – Grécia e Turquia – e mesmo um século depois várias experiências podem ser relatadas como idênticas. Já nas diferenças, algumas desvantagens, destacando-se a duração da viagem, já que nosso visionário pré-Corbs teve meses para desfrutar o que rapidamente conheci em 15 dias. Por outro lado, suspeito que tive um pouco mais de conforto e certamente, estava mais bem acompanhado. No lugar do pinguço Auguste, eu estava com a Sandra, recém casada com este que vos fala. Calma, não fujam ainda. Deixarei os relatos da lua-de-mel para os amigos acostumados a tal aborrecimento. Mas arquitetos em viagem, não importa a fase lunar do relacionamento, trazem mais que presentes (e quilos extras) na bagagem.

E Calvino, gênio, enxergou o óbvio: você pode relatar o mesmo lugar infinitas vezes; cada aspecto de uma cidade faz dela uma cidade diferente. Tentar descrever Atenas ou Istambul em UM simples discurso linear é como tentar explicar a chuva que você tomou descrevendo uma das gotas.

Visitei infinitas cidades em 15 dias. Vamos ver quantas eu consigo descrever aqui. Stay tuned.







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Quarta-feira, Agosto 19, 2009


O que é o que é?



Acreditem se quiserem, mas não, não é uma nova apple store.




é um estacionamento. mais ou menos 100m² e espaço para 34 carros. tá bom né?

mais fotos aqui



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Sexta-feira, Julho 31, 2009


Fake Plastic Pilotis


ou
O Curioso Caso de Phillip Jonhson



A forma como fui apresentado a certas figuras da arquitetura durante os meus sabáticos anos universitários podem ser classificadas de duas formas: Horário Eleitoral Gratuito do Partido Modernista, e o que carinhosamente era chamado de “história” – ou seja, o relato arqueológico do resto – de art décor ao deconstrutivismo.

Comecei a desconfiar que Le Corbusier não tinha realmente vindo de Krypton já durante a faculdade, apesar de farta documentação em contrário – assim como descobri que lelé mesmo era o Oscar. E, mesmo já sabendo que a leitura de El Croquis e AV também não causava cegueira nem fazia crescer cabelo nas mãos, a tarefa de rearranjar certas concepções se arrastou ao longo dos anos; até hoje tem mais livros no chão que acomodados na minha estante mental.

Um exemplo desse vácuo, até recentemente, foi Phillip Johnson. Nunca entendi o que a Glass House fazia na aula de pós-modernismo. Na verdade, seria mais apropriado dizer que eu nunca me interessei por entender o que a Glass House fazia na ala psiquiátrica da arquitetura, e nenhum professor também nunca se interessou em comentar.

Até que Witold Rybczynski, na Slate, deu a fita completa, na sucessão de slides mais constrangedora para um arquiteto que eu já vi. (Meus amigos dizem ver a toda hora, mas não divaguemos). Que a Glass House era uma espécie de releitura da Farnsworth, já sabiamos. O que eu particularmente não sabia era o quanto essa releitura era analfabeta. E que a vida toda de Johnson era uma coleção incrível de analfabetismo arquitetônico, no nível que só esperamos encontrar em urbanistas ou fiscais da prefeitura.

A sessão de slides não deixa dúvida: Johnson é o maior (ou melhor, mais célebre) fashion victim da história da arquitetura. Testou todas as modas; não entendeu nenhuma. Com o tempo, conseguiu a façanha de largar como crítico avant-garde do modernismo e chegar como uma paródia involuntária do deconstrutivismo.

Mas o que parece uma involução, na verdade é apenas a aplicação teimosa de um mesmo método: tentar se manter antenado às tendências, a qualquer preço.

Como sabemos, só o medo adolecentente de “estar por fora” explica certas preferências musicais (e certos piercings). Mas adolescência é fase, ainda que a cada dia mais alongada. Prolongada por uma vida inteira, passa a impressão de involução. Assim Phillp Johnson , o Benjamim Button da arquietura escolheu viver: como um tiozão de afastador na orelha ouvindo Jonas Brothers.



PS: Vivo reclamando de certa arquitetura brasileira que resiste bravamente (nos vários sentidos do termo) a evoluir esteticamente . Mas muito pior é não ter sequer um fio da meada, uma idéia sobre arquitetura que se possa rejeitar com o tempo - ou reafirmar a vida inteira.





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